Bolsa anticrack foca lado mais radical de tratamento

Bolsa anticrack foca lado mais radical de tratamento

Segue uma matéria escrita pelo antropólogo Maurício Fiore sobre as novas medidas do governo paulista.

Não há como negar que a ação é quase paródica. Além de delatar a parca compreensão que se reproduz na aplicação de uma medida que busca se assemelhar com as ações realizadas pelo governo federal.

Fala no Espaço Poiésis

Amanhã estarei realizando uma fala intitulada: Articulações entre políticas públicas e a política da psicanálise. 

Abaixo segue o cartaz e link para quem quiser mais informações com o pessoal do espaço.

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Maiores informações: 
http://poiesispsicologia.com.br/eventos.html

Subsídios analíticos para pensar uma campanha de saúde sobre drogas

O texto que segue abaixo é a base de uma fala feita no seminário Mídia/Drogas/HIV: conflitos e possibilidades que ocorreu no Hotel Excelsior no dia 14 de setembro.

Agradeço aos organizadores do Centro É de Lei que fizeram convite e aos participantes pelo debate.

 

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Por que pensarmos a relação entre psicanálise e campanhas de saúde? Talvez porque ao ignorar o aspecto inconsciente da vida humana, as campanhas de saúde pública ficaram ao menos um século atrás das campanhas publicitárias voltadas para o consumo de massa. Ironicamente, a relação entre psicanálise e propaganda se inicia na indústria de tabaco.

O promotor desta amizade foi ninguém menos que o sobrinho de Freud, Edward Bernays, vinculado a Freud pela família de Marta Bernays, sua esposa. Edward, ao contrário de alguns governantes e assessores de Estado de sua época, sabia que fornecer às pessoas um punhado de informações factuais não era algo eficaz na comunicação. Ao ler o texto Introdução à psicanálise, de seu tio Sigmund Freud, se convenceu avidamente de que motivações irracionais da vida humana produziam qualquer coisa que depois fosse justificada pela via da racionalidade.

Assim, Edward foi contratado por George Hill, presidente da American Tobacco Corporation (Lucky Strike) para inserir o uso do cigarro em um grupo de consumidores que não fumavam publicamente por um tabu social. Visto que, para uma mulher, fumar em público era algo que lhe agregava estigma. Desse modo, Bernays para articular sua campanha, pagou por uma consulta com o psicanalista Abraham Brill, discípulo direto de Freud, que lhe disse que o cigarro era um símbolo fálico. Até aí, devemos reconhecer, pouco se faz com isso além de piadas ruins. No entanto Abraham Brill explicou a Bernays que o falo em nossa sociedade existe enquanto metáfora de poder, poder que até aquele momento se encontrava em exercício exclusivo por parte dos homens. Portanto, o cigarro poderia ser usado como forma de confrontar o poder masculino.

Assim, em uma parada pública, na semana de páscoa em Nova Iorque, Edward Bernays contratou modelos debutantes que, em determinado momento da romaria, acenderiam seus cigarros teatralmente em pontos visíveis da rua. Antes do evento, avisou a imprensa que estava sabendo de um grupo de sufragistas que realizariam um protesto.

A ação foi um sucesso, o ato ganhou repercussão nos jornais e a venda de cigarro para mulheres disparou, junto com outras campanhas movimentadas pela indústria de tabaco.

Foi necessariamente com a colaboração de Bernays, seguido por alguns psicanalistas que surfaram nesta onda, que a propaganda passou a vender não só o produto, mas reconhecimento, identidade e agregação de valores sociais.

Porém, ainda que esta estratégia tenha entrado em voga pouco depois do início do século XX, sua origem se encontra mais aquém na história. O período que podemos chamar de modernidade foi marcado, desde seu início, com uma luta por uma existência na qual não falte nada. Do mais básico ao mais supérfluo, segundo os critérios de cada um, é na modernidade que se inicia a democratização do sonho do homem viver sua plenitude. Que fique bem marcado que o que se torna democrático é o sonho. E aqui podemos marcar que sem isso a psicanálise também não seria possível. Visto que na expectativa de que o homem possa prescindir da condição de animal, Freud inicia seu projeto tentando lançar luz sobre aquilo que está obscuro, a saber, o que está depois dos limites da consciência.

Assim, esta luta desenfreada contra qualquer coisa que falte não se limitou a produção de bens materiais que possam preencher uma casa confortável, mas do desenvolvimento de uma série de tecnologias que convençam o humano que, adquirindo seus bens, tudo irá bem. Hoje, qualquer adolescente sabe, ou ao menos acredita, na importância de poder comprar um estilo. Um tênis que combine com o cabelo, com os amigos e com os parceiros sexuais que se quer atrair.

Esta visão do homem em sua plenitude ganhou grande espaço e repercussão na política fascista. Um modelo de funcionamento social de plena ordem, onde a moral é exercida pela via de um automatismo maquínico que opera de modo binário em recompensa ou punição, pertencimento ou exclusão. E sim, aqui já estamos falando das drogas, principalmente do crack. Não são poucos os Estados que operam visando esta lógica, inclusive os que se pronunciam enquanto Estado de direito. A operação de pertencer a algo, detém uma lógica, e esta lógica não é frouxa, é uma conta bem amarrada, uma equação, de segundo grau completo, de preferência, para que se consiga um emprego. Esta lógica é amplamente explorada em regimes totalitários, onde a diferenciação entre “nós” e “eles” aparece de forma mais escancarada. O filósofo Slavoj Zizek conta que o fascismo é um regime político até certo ponto, mais honesto do que os regimes democráticos, porque eles prometem acabar com um grupo de pessoas e realmente se empenham nisso, ou seja, é uma das poucas propostas políticas que cumprem o que prometem. Algumas correntes sociológicas compreendem bem isso, principalmente aqueles que compreenderam Durkheim e sua noção de anomia. Se pensarmos anomia como frágil internalização ou pouca clareza das regras sociais, é importante que consideramos que isso, que chamam de anomia, não deve ser combatido, mas cultivado até certo ponto, pois, é justamente isto que não está claro, que gera engano, que confunde, que pode servir enquanto relançamento de questões que antes não poderiam ser articuladas. Nesta direção, podemos considerar diversos movimentos que lutam por direitos civis, dentre eles até mesmo o movimento LGBT, assim como este pela legalização das drogas como movimentos que lutam por pertença, equidade, ou mesmo equivalencia. Eu apoio estes movimentos e acredito que sem estes o mundo seria um lugar muito mais difícil de se viver. No entanto, a discussão que faço aqui é uma discussão sobre estratégia. A ação planejada por Bernays foi impecável, até mesmo em seu aspecto político no que diz respeito ao propósito social democrático. Esta ação, foi uma das que possibilitou algo novo para as mulheres, ou seja, poder fumar em público, sem serem taxadas de mulheres da vida (vadias). No entanto, devemos reconhecer o limite da ação que decorre da estratégia Durkheimiana. Ela visa estabelecimento de sentido, passagem de não aceito para aceito. E com isso, sem dúvidas, quem antes não estava adequado, sofrerá menos violência. Digo menos, porque quando vivemos em sociedade, é difícil, talvez seja impossível não sofrer violências. Seja nas relações de genero, etnia, educacionais, familiares e principalmente de trabalho.

É importante que as ações de saúde pública, banquem uma espécie de anti-propaganda. Não porque isso parecerá mais ético. Se algo parece mais ético ou não aos olhos dos outros, isso não importa. Mas porque é importante romper com uma promessa que é feita por toda propaganda. Esta promessa a que faço referência é a promessa de felicidade, de que não falte nada, inclusive sentido. A propaganda promete justamente isso. Que a partir do momento que você adota tal postura, compra tal produto. Tudo passa a fazer sentido. É deste modo, que pensamos como essencial para nosso trabalho, um celular que acesse e-mail, para que você possa verificar seu e-mail dez vezes por dia. Isso comporta uma expectativa, a expectativa de que nada irá passar batido, de que você poderá dar conta de tudo que te demandam. Talvez dê mesmo, desde que seja por e-mail. As pessoas me dizem, mande por e-mail o nome deste filme que você acabou de comentar, e eu respondo. Ok! Então me mande um e-mail para me lembrar de lhe enviar o e-mail com o nome deste filme. E isto prova o quanto nossas relações passam por um pertencimento de bens de consumo que viabiliza pertencimento social.

Esta semana, aqui na região da Sé, acompanhei um rapaz, usuário de crack que foi atropelado enquanto dormia na rua. No atendimento de uma unidade de saúde, precisava retirar alguns remédios, e a recepcionista lhe pediu nome e data de nascimento. Ele de maneira simples, sem drama ou alarde, disse que não sabia sua data de nascimento. A atendente disse que ele não seria possível fornecer seu remédio se não soubesse seu aniversário, pois isso era necessário para localizar o número seu cartão SUS. O rapaz, muito honesto, disse que não queria um cartão sus, mas que precisava do remédio. Diante do embrutecimento deste profissional, que após ter feito sua graduação só fez repetir regras, buscamos outro serviço, que poderia ser ético no trato. Ali, a assistente social lhe perguntou uma data aproximada, o rapaz afirmou não saber. Mas então, ela perguntou uma data que ele gosta, e ele começa a cantar Jorge Ben, “moro, num país tropical, onde tem carnaval, tem carnaval”. E ela pergunta “você quer que eu registre 20 de fevereiro, o carnaval?”. E ele responde que sim. Por fim, ele conseguiu seu remédio, e também manifestou vontade de tratar o uso de crack, que já deve ter começado.

Esta cena tem algo de sublime. Talvez, futuramente, por questões burocráticas alguém tenha de buscar algum registro. Mas o importante, naquele momento, foi a liberdade de poder criar algo. Nesta conversa, ele dizia “essa história de bolo, velinha, nunca passei por isso não, mas eu lembro minha matrícula do presídio, por ela você não pode puxar o nascimento aí no sistema?”. Talvez, sendo otimista, este usuário poderá comemorar seu aniversário no carnaval do próximo ano. Ao menos deste modo, a festa está garantida.

A questão que quero abordar com estas digressões é a questão da propaganda. É comum as ações de saúde pública, recorrerem ao estabelecido, clamarem por uma adequação, ou como é bem frequente, uma propaganda que proponha uma ação negativa “diga não”, “evite”, “nunca experimente”. Isto é pouco eficaz, pois a propaganda existe justamente para o contrário, para que você faça, desfrute, possua, seja. Ao invés de pensarmos propaganda, podemos pensar campanhas, que possam romper a lógica institucional do pertencimento, neste caso, pertencimento à rua e ao crack. Quem trabalha com moradores de rua, sabe que a rua é uma instituição. Com o tempo, criam se hábitos e meios de sobreviver nela e até mesmo repostas estereotipadas a uma série de eventos. É necessário reaguçarmos um pouco nossa capacidade de invenção, assim como neste atendimento onde surgiu uma data de nascimento, com música e tudo. As campanhas publicitárias, começam com um refinado estudo de seu público-alvo, para poder identificar o que dialoga com este público. Talvez este seja um bom começo para a questão do crack. De modo a não operar pela via da urgência. Sem dúvida o crack produz uma questão séria. Mas é importante que os meios de comunicação não sejam alarmistas. As ações de prevenção a AIDS tem uma trajetória e muitas experiências para compartilhar sobre isso.

A atual campanha apela para a independência. Realmente, isto é algo que tem quase um valor de fetiche hoje em dia. É comum que pessoas sofram um tanto por dependência, frequentemente dependência do companheiro amoroso, da família, etc… Interessante é o quanto um ideal de Eu atua de modo esmagador nesta operação. Por que temos essa convicção de que depender é ruim? É possível viver de outro modo? Óbvio que me refiro a um nível mais elementar, e estou aqui borrando um pouco os contornos sociais no que diz respeito a uma moral. A questão se encontra no metodismo, circuito fechado que pode ser constituído de diversas maneiras, variando para cada um. Daí a importância da Redução de Danos nas campanhas. Sabemos que a Redução de Danos é uma estratégia, talvez alguns princípios. Mas há um modo que a Redução de Danos aborda as drogas que é especialmente estratégico, é respeitoso, e isso faz diferença. Dentre inúmeras coisas interessantes na redução de Danos, podemos destacar o humor. Sem dúvida, a situação do usuário que está na rua, em condição extremamente vulnerável é séria. No entanto é justamente o humor, uma espirituosidade no trato, que possibilita um deslocamento, no qual a droga não precisa ser só droga, e é justamente essa possibilidade da droga não ser um signo esvaziado que precisa ser trabalhada. Hoje a cracolândia fica constantemente sob holofotes, há alguns anos está assim. Mas quem trabalha com saúde pública, sabe que as drogas não são uma questão a parte. Talvez o que emerja com a questão das drogas, principalmente do crack nos espaços públicos seja da ordem de uma questão que nossa sociedade não permita que se articule. Eu suspeito que esta questão, que é disparada com as drogas nos espaços públicos, interrogue o que hoje, principalmente na cidade de São Paulo, é chamado de progresso.

Melô da cracolândia

“Essa aqui é o melô da cracolândia, escuta só!”

Era o que dizia, empunhando o violão, um paciente de um Centro de Atenção Psicossocial ao palhetar os primeiros acordes de Thriller, um dos grandes sucessos do astro pop Michael Jackson.

Foi neste instante, que pude presenciar a confirmação de uma hipótese que sustentei em minha pesquisa. Uma psicanalista em um texto sobre toxicomanias afirma que o toxicômano não articula a pergunta “o que sou para o Outro?”. Eu, inevitavelmente tive de responder, nas páginas de meu trabalho, que esta questão chega sim, a se articular, no entanto, a resposta é rápida e quase não se permite que a pergunta seja pronunciada até o final. Zumbi! Sim… Assim como a mosca na sopa encarnada por Raul Seixas, aquele que usa crack e perambula pelas ruas do centro, sabe que carrega uma mensagem, uma mensagem cravada nas feridas da boca e dos dedos castigados pelo cachimbo improvisado. Esta mensagem, que o poder público finge não ouvir de seus vizinhos de calçada, é simples e direta: “Nem só de progresso vive o humano”. É na sombra da ponte, da marquise, do prédio do Fórum, da Câmara Municipal que se arrastam aqueles que não compraram o último sonho da moda. Optaram por ficar com o pesadelo mesmo. Mais barato e de um prazer supostamente diferenciado.

Realmente, a mistura de referências não é despropositada. Nos últimos anos no centro de São Paulo podemos até nos perguntar, o que é mais pop? Crack ou Michael Jackson? Sem dúvida o crack, ainda que tentem banir os dois: a droga e o artista de rua.

Para pensar a clínica…

Ainda me pergunto se a melhor arma contra o crack seja convertê-lo em palavras… Tenho minhas dúvidas. Por mais que a proposta política da psicanálise seja trazer para a língua aquilo do que o corpo padece. Talvez o crack deva ser compreendido como ato. Retorno do recalcado pelo progresso. O crack ensina que, ao contrário do que acredita o homem burguês, a escada não leva somente para cima. Mas também não se trata de descer os degraus, esta escadaria foi projetada por Escher e, enquanto acredita-se que está subindo, percebe-se lá embaixo, mais abaixo do que do ponto de partida.

Talvez o crack, onomatopeia de ruptura, possa ser partida. Quem sabe, estes que vagam, ao invés de aceitarem habitar os túmulos, representados de modo sublime pelas praças e espaços públicos, hoje abandonados ou cercados, deixem a casca pintada pelo medo da classe média. Assim, deixemos às traças a narrativa do ex-nóia, que só faz afirmar sua condição. A este cabe reconhecer que o fundo do poço com seu resto de água suja, exatamente ao meio dia, reflete o sol e o céu, zombando de quem acha que seja possível se resguardar do dia, do nome próprio, das palavras e, principalmente, dos outros.

Em debate: Álcool e outras drogas

Já está disponível para download o livro publicado pelo CRP “Em debate: Álcool e outras drogas”. A edição ficou bem legal com imagens e uma grande variedade de estilos e abordagens sobre o tema. Dentre os autores estão Bruno Ramos, Cristiano Maronna, Mônica Gorgulho, Júlio Delmanto, Marco Magri, Marcelo Sodelli, Elisaldo Carlini, Denis Petuco e Marilia Capponi.

O texto de minha contribuição se chama “Crack e mídia: comunicação e propaganda na idade da pedra”.

Para download: clique aqui.

Lançamento do 1º livro do selo: Em debate – Álcool e Outras Drogas

Nesta quarta-feira, 16 de maio haverá o lançamento do livro “Álcool e outras drogas” no CRP.

O livro contém um texto meu e  artigos de Bruno Ramos e mais tantos outros autores muito bons. A mesa contará com os organizadores, usuários e o antropólogo Maurício Fiore.

Segue a apresentação segundo vinculação do CRP:

Lançamento do 1º livro do selo: Em debate – Álcool e Outras Drogas

No marco da Semana da Luta Antimanicomial, o CRP SP lança a publicação Álcool e Outras Drogas, que inaugura o selo EM DEBATE. O livro pretende contribuir com o debate sobre o tema de uma forma sem estereótipos ou preconceitos. Haverá debate sobre drogas e direitos humanos com a participação de Josueliton de Jesus Santos, usuário da saúde mental e integrante da AMAE (Associação Metamorfose Ambulante do Sistema de Saúde Mental da Bahia); e de Maurício Fiore, pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e do Neip (Núcleo de Estudos Interdisciplinares de Psicoativos).
Quando: 16 de maio – a partir das 18h30
Onde: Auditório do CRP SP – Rua Arruda Alvim, 89, Jardim América
Inscrições:
http://www.crpsp.org.br/lutaantimanicomial/inscricoes.aspx